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Palmeiras perdeu Allan e Abel Ferreira encontrou outra forma de criar desequilíbrio

Palmeiras perdeu Allan e Abel Ferreira encontrou outra forma de criar desequilíbrio

28/09/2026 20:55

Allan saiu, mas Abel não procurou simplesmente um substituto. A resposta do treinador foi mexer na estrutura e propor uma nova estratégia tática A saída de Allan para o Manchester City retirou de Abel Ferreira uma ferram...

Allan saiu, mas Abel não procurou simplesmente um substituto. A resposta do treinador foi mexer na estrutura e propor uma nova estratégia tática

A saída de Allan para o Manchester City retirou de Abel Ferreira uma ferramenta que dava ao sistema de três zagueiros uma característica bastante específica. O meio-campista deixou de ser um ala convencional e desempenhava funções em que recebia aberto, atacava o marcador no um contra um, carregava a bola por metros e conseguia transformar uma jogada aparentemente controlada em uma situação de desequilíbrio. Em 2026, tinha seis gols e cinco assistências e liderava o Brasileirão em dribles certos, com 33 em 20 partidas.

Por isso, a decisão do Palmeiras de não contratar uma reposição direta ficou mais complexa do que simplesmente aceitar a perda de uma peça. O clube abriu mão de um jogador com características difíceis de encontrar e, em vez de buscar no mercado alguém capaz de reproduzir aquele pacote, apostou no próprio elenco. A venda chegou a 40 milhões de euros, com 37,5 milhões fixos, e foi tratada como uma operação financeira fora da curva. A consequência esportiva, entretanto, precisava ser resolvida por Abel.

Na primeira resposta, o treinador foi revelador e não tentou copiar o sistema de quando tinha Allan. Contra o Santos, na ida das quartas de final da Copa do Brasil, abandonou momentaneamente a estrutura com três zagueiros e voltou à linha de quatro. Giay e Piquerez passaram a ocupar os corredores como laterais, enquanto Marlon Freitas e Andreas Pereira ficaram por dentro, com Arias e Mauricio partindo de zonas mais avançadas. É uma mudança que diz muito: sem Allan, Abel perdeu uma peça que permitia usar o corredor direito de maneira agressiva sem necessariamente transformar o time em uma equipe de pontas tradicionais.

O resultado mostrou que havia outra maneira de produzir desequilíbrio. O Palmeiras venceu o Santos por 3 a 0, com dois gols de Flaco López e outro de Andreas Pereira. Não foi uma cópia do jogo que Allan fazia. O peso ofensivo foi redistribuído. Andreas apareceu na área, Flaco concentrou a presença de finalização e Arias e Mauricio ocuparam os espaços de criação. O Verdão, naquele momento, encontrou mais jogadores participando da construção das jogadas ofensivas.

A verdadeira mudança com a saída de Allan

Mas o mais interessante aconteceu depois, porque Abel não abandonou definitivamente a ideia que havia potencializado Allan. Contra a LDU, pela Libertadores, o treinador voltou aos três zagueiros. Só que agora o corredor direito passou a ter Giay como ala, enquanto Lucas Evangelista e Marlon Freitas sustentaram a faixa central. Andreas estava suspenso. Arias recebeu liberdade mais adiantado, ao lado de Flaco e Vitor Roque. A SEP venceu por 1 a 0, teve 61% de posse, finalizou 28 vezes e construiu 2,77 de xG (expectativas de gols).

Essa partida ajuda a entender a verdadeira mudança provocada pela saída de Allan. Quando ele estava disponível, o ala direito podia ser também um agente de criação individual. Giay oferece outra coisa: amplitude, ocupação de corredor, apoio e disciplina estrutural. Para manter os três zagueiros, Abel passou a precisar que o protagonismo ofensivo fosse deslocado para dentro e para o lado esquerdo, além de depender mais da capacidade de Arias, Vitor Roque, Flaco e dos próprios meias para produzir o desequilíbrio que antes poderia começar nos pés de Allan.

Impacto da saída cobrou um resposta coletiva mais assertiva

O jogo contra o Botafogo deixa essa diferença ainda mais evidente. No empate por 0 a 0, Abel começou com Giay, Gómez, Barboza e Piquerez atrás de Andreas, Marlon e Lucas Evangelista; Felipe Anderson, Mauricio e Flaco formaram a linha mais ofensiva. Arias e Vitor Roque entraram apenas no segundo tempo. É uma composição em que ganha capacidade de controle pelo meio, mas perde justamente aquela possibilidade de receber a bola aberta e ter Allan partindo para cima do marcador. O jogo ficou mais dependente da circulação coletiva para produzir vantagem.

Isso ajuda a explicar uma característica dos jogos recentes. O Palestra continua conseguindo controlar partidas, mas precisa construir o ataque de maneira mais coletiva. Contra o Grêmio, por exemplo, terminou com 72% de posse, 31 finalizações, dez no alvo e nove escanteios, mas ficou no 0 a 0. Weverton fez dez defesas. O dado que a equipe consegue chegar ao último terço, mas já não tem aquela mesma fonte individual de progressão pelo corredor que poderia romper uma linha defensiva sem depender de uma sequência longa de passes.

É aí que Andreas, Marlon e Lucas Evangelista ganham importância. Nenhum dos três precisa ser “o novo Allan”, porque esse seria justamente o erro da análise. Andreas oferece passe, associação e chegada, Marlon dá sustentação e permite que outros avancem, Lucas pode ocupar diferentes alturas e ajudar a conectar setores. A compensação acontece pela soma dessas características. O Palmeiras perdeu uma peça capaz de desequilibrar sozinha e passou a exigir mais participação coordenada de seus meio-campistas e atacantes.

Os desafios do Verdão pós-Allan

A saída de Allan criou uma mudança que os números de gols do elenco ajudam a esconder. Flaco, Mauricio, Sosa, Arias e Vitor Roque passaram a dividir ainda mais o protagonismo ofensivo, enquanto o meio-campo ganhou a responsabilidade de sustentar essa distribuição. A questão é perceber que o time mudou a origem de suas jogadas de ataque. Antes, o sistema podia produzir superioridade a partir do corredor com um jogador que carregava e driblava, agora, precisa criar essa superioridade pela combinação entre estrutura, circulação e ocupação dos espaços.

Talvez seja justamente essa a principal cobrança que a saída de Allan deixou para Abel no segundo semestre. O Palmeiras não contratou um substituto porque decidiu preservar sua estratégia financeira e confiar no elenco. Só que confiar no elenco significa descobrir se Marlon, Andreas, Lucas, Arias, Giay, Mauricio, Flaco e Vitor Roque conseguem dividir entre si aquilo que antes um jogador concentrava em determinadas fases da jogada. Os resultados recentes mostram que essa adaptação já produziu vitórias e controle, mas também expuseram partidas em que o time precisou trabalhar muito mais para fabricar o mesmo tipo de rendimento. Allan saiu e o verdadeiro teste para o Palmeiras é saber se o protagonismo que ele concentrava consegue, de fato, ser transformado em protagonismo coletivo.