Reforma estatutária pode ser primeiro passo para mudar a gestão do São Paulo
Proposta que será votada pelo Conselho Deliberativo prevê mudanças na governança, mais independência na fiscalização e prazos para decisões importantes A reforma estatutária que será votada pelo Conselho Deliberativo do ...
A reforma estatutária que será votada pelo Conselho Deliberativo do São Paulo na próxima segunda-feira pode representar um passo importante para o futuro do clube. A proposta preparada pela comissão responsável pelo tema não mexe, neste momento, no processo eleitoral nem na possibilidade de criação de uma SAF, mas ataca um problema que há muito tempo precisa ser discutido: a concentração de poder dentro do Tricolor.
Entre as principais mudanças está a reformulação do Conselho de Administração, que passaria a ter nove integrantes, sendo cinco membros independentes. Atualmente, três conselheiros independentes são indicados pelo presidente. Pela nova proposta, esses nomes seriam selecionados por uma empresa especializada e posteriormente submetidos à aprovação do Conselho Deliberativo. Na prática, existe uma tentativa clara de diminuir a influência direta do presidente sobre o órgão.
E esse é um dos pontos que mais considero positivos. O presidente do São Paulo deixaria de ser automaticamente o presidente do Conselho de Administração, que escolheria internamente quem ocuparia a função. Além disso, o compliance passaria a responder ao próprio Conselho de Administração, e não à diretoria administrativa. Pode parecer uma mudança burocrática, mas estamos falando de mecanismos que podem aumentar a fiscalização e diminuir a possibilidade de decisões importantes ficarem concentradas em poucas mãos.
São Paulo precisa dividir melhor o poder
Outro avanço está na obrigação de o Conselho de Administração ter acesso, em até sete dias, aos contratos de jogadores, comissão técnica e intermediários do futebol. O colegiado também teria a responsabilidade de elaborar e aprovar a proposta orçamentária, além de construir um planejamento estratégico para um período de três a cinco anos. É uma tentativa de fazer o São Paulo pensar além do mandato de quem ocupa a presidência.
Também considero importante o fortalecimento do Conselho Fiscal. A proposta prevê que pelo menos um de seus integrantes tenha formação em Ciências Contábeis e registro regular no Conselho Regional de Contabilidade. Caso isso não aconteça, o Conselho Deliberativo deverá contratar uma empresa especializada. O órgão também poderá solicitar diretamente informações e documentos à diretoria executiva e ao Conselho de Administração.
Há ainda uma tentativa de evitar que discussões fundamentais fiquem eternamente paradas dentro do clube. A reforma estabelece prazos para manifestações do presidente, do Conselho de Administração e do Conselho Consultivo, com situações em que o silêncio dentro do período determinado poderá significar aprovação. É uma mudança importante porque o São Paulo não pode continuar dependendo de intermináveis discussões políticas para tomar decisões estruturais.

Reforma só funciona se vier acompanhada de renovação
Mas existe um ponto que, para mim, é ainda mais importante do que qualquer alteração no estatuto: quem serão as pessoas responsáveis por colocar essas regras em prática. Não adianta criar mecanismos modernos de governança se o São Paulo continuar sendo comandado pela mesma mentalidade arcaica, amadora e egocêntrica que tantas vezes colocou interesses políticos acima dos interesses do clube.
O Tricolor precisa entender que profissionalizar a gestão não significa apenas contratar executivos ou criar novos conselhos. Significa mudar a cultura. O clube precisa de dirigentes que tenham disposição para dividir poder, aceitar fiscalização, prestar contas e pensar no São Paulo daqui a cinco ou dez anos, e não apenas na próxima eleição ou no próximo grupo político que pretende assumir o comando.
Por isso, vejo a proposta com bons olhos. Ela não vai resolver sozinha os problemas financeiros, esportivos e administrativos do São Paulo, mas pode criar mecanismos para impedir que determinados erros sejam repetidos. Se a reforma for aprovada pela Assembleia Geral e entrar em vigor com a próxima gestão, o clube terá uma oportunidade de construir uma estrutura mais moderna, transparente e profissional. Agora, será preciso coragem para fazer a mudança mais difícil: renovar também as pessoas e a mentalidade que comandam o São Paulo.