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Palmeiras não depende das bets, mas seu fim testa o modelo financeiro criado por Leila

Palmeiras não depende das bets, mas seu fim testa o modelo financeiro criado por Leila

26/09/2026 19:56

Verdão apostou nas bets, mudou seu patamar e agora enfrenta uma nova conta como desafio para se manter em um mercado que está prestes a perder sua galinha dos ovos de ouro O fim das bets coloca o Palmeiras diante de uma ...

Verdão apostou nas bets, mudou seu patamar e agora enfrenta uma nova conta como desafio para se manter em um mercado que está prestes a perder sua galinha dos ovos de ouro

O fim das bets coloca o Palmeiras diante de uma ironia que ajuda a explicar a transformação financeira do clube nos últimos anos. Em 2024, Leila Pereira ainda demonstrava resistência à ideia de colocar uma casa de apostas no espaço mais nobre da camisa. Naquele momento, enquanto diversos rivais já haviam aderido ao movimento, a presidente dizia não ser simpática a uma bet nacional como patrocinadora máster e fazia questão de selecionar uma empresa que considerasse sólida e confiável.

No fim daquele ano, entretanto, a Sportingbet assumiu o lugar que durante uma década havia sido ocupado por Crefisa e FAM. Agora, menos de dois anos depois, uma Medida Provisória assinada pelo governo Lula proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. As plataformas têm até 5 de outubro para retirar publicidade e patrocínios, enquanto os sites e aplicativos devem sair do ar a partir de 6 de outubro. A mudança coloca em risco uma receita que se tornou relevante justamente na fase em que o Palmeiras aumentou o tamanho de sua operação esportiva.

O contrato com a Sportingbet prevê cerca de R$ 100 milhões fixos por temporada, podendo alcançar R$ 170 milhões com bônus ligados a metas esportivas. O vínculo foi firmado por três anos, com possibilidade de renovação por mais um. A análise precisa ir além do número estampado nas manchetes. O Palmeiras terminou 2025 com arrecadação recorde de R$ 1,783 bilhão, sendo R$ 1,6 bilhão em receitas operacionais, e superávit de R$ 292,3 milhões. A Sportingbet, portanto, não representa sozinha a sustentação financeira do clube.

No levantamento sobre as contas de 2025, o patrocínio da bet correspondeu a uma fatia relevante, mas distante de significar dependência absoluta. E o próprio resultado daquele exercício mostra por que seria exagerado tratar o fim do contrato como uma ameaça automática à saúde financeira: o Palestra também teve mais de R$ 300 milhões acima do previsto em vendas de atletas e recebeu R$ 254 milhões em premiações pela participação na Copa do Mundo de Clubes.

O Verdão depente da bet para contratar?

Mas existe uma segunda camada, e ela é mais interessante. O dinheiro da Sportingbet não pode ser carimbado contabilmente como responsável pela contratação de qualquer jogador. As receitas entram no caixa do clube e financiam uma operação composta por várias fontes. Ainda assim, a escala dos números mostra a dimensão que o novo patrocínio alcançou dentro da estratégia. Em apenas uma janela de transferências de 2025, a SEP investiu cerca de R$ 435 milhões em sete reforços, mais do que o dobro de todo o gasto de 2024.

Vitor Roque custou aproximadamente R$ 154 milhões, enquanto Paulinho representou cerca de R$ 109 milhões. O investimento total daquela janela chegou a quase 38% do valor máximo anual que a Sportingbet poderia pagar em um contrato de R$ 170 milhões. Não é causalidade contábil, é uma demonstração de escala financeira. A comparação com a era Crefisa ajuda a entender por que essa mudança aconteceu.

Antes da Sportingbet, Crefisa e FAM pagavam R$ 81 milhões fixos por temporada, com possibilidade de chegar a R$ 120 milhões em bônus. O problema era que esse valor havia sido estabelecido em 2019 e mantido na renovação de 2021, sem correção pela inflação. Enquanto isso, o mercado de patrocínios do futebol brasileiro havia mudado com a entrada agressiva das casas de apostas. Em 2024, a própria Leila reconheceu que as bets haviam alterado o patamar dos valores e que o Verdão não poderia ignorar essa realidade. A presidente decidiu encerrar o ciclo de suas próprias empresas na camisa e buscar parceiros externos.

Há uma ironia evidente nessa trajetória. Leila passou de uma posição de cautela diante das casas de apostas para aceitar justamente uma delas como principal parceira. O clube abandonou a lógica de exclusividade da Crefisa e passou a explorar diferentes propriedades da camisa, com a Sportingbet ocupando o espaço máster e outros parceiros preenchendo as demais áreas. O contrato com a nova patrocinadora também passou a ter correção anual pela inflação, algo que não existia no acordo anterior.

Palestrinas deram o pontapé inicial no modelo

O histórico mostra ainda que o Palmeiras já tinha entrado no mercado das apostas antes de colocar uma bet no uniforme principal. Em 2024, a Esportes da Sorte estampava o espaço máster do futebol feminino por R$ 18,5 milhões por temporada. O contrato ganhou outro peso quando a empresa se tornou alvo da Operação Integration, e o clube informou que seu departamento jurídico acompanhava o caso e que, naquele momento, cumpriria o vínculo. Poucos meses depois, a Sportingbet assumiria o espaço principal dos times profissionais masculino e feminino.

A sequência é reveladora: primeiro o setor entrou pela porta do futebol feminino; depois, tornou-se o principal patrocinador comercial da SEP. O problema agora é que o Maior Campeão do Brasil não terá de substituir apenas um patrocinador. O mercado inteiro terá de fazer isso ao mesmo tempo. Levantamento divulgado após a medida provisória aponta que as bets foram patrocinadoras máster de 14 dos 20 clubes da Série A em 2026 e que os contratos do setor com clubes brasileiros chegaram a centenas de milhões de reais. Isso significa que o Palmeiras buscará uma nova fonte de receita em um mercado no qual seus principais concorrentes também estarão procurando dinheiro para ocupar o mesmo espaço.

O fim das bets pode atingir o Palmeiras pelo ecossistema esportivo que se formou ao redor dessas empresas. A Sportingbet destacou que o contrato com a SEP poderia entrar em um novo cenário diante da mudança regulatória, enquanto o clube terá de discutir os próximos passos. Além disso, competições como Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores também possuem relações comerciais com empresas de apostas, o que pode afetar indiretamente a dimensão das premiações. Portanto, a discussão não termina no espaço da camisa: há uma cadeia de receitas comerciais conectada ao mesmo setor.

O verdadeiro desafio para as finanças Alviverdes

Por isso, o momento representa um teste para uma das principais características da gestão Leila com a tentativa de tornar o Palmeiras cada vez menos dependente de uma única fonte de dinheiro. O clube conseguiu diversificar receitas, aumentar arrecadação, vender jogadores em valores elevados, explorar novas propriedades comerciais e atingir patamares inéditos de faturamento. O fim das bets não apaga esse processo. Mas retira justamente uma peça que ajudou a elevar o valor comercial do uniforme e que chegou quando o clube também aumentava agressivamente seus investimentos no futebol.

Os números disponíveis não sustentam uma conclusão tão dramática. A questão mais relevante é outra, aponta para o quanto custará substituir uma receita fixa de R$ 100 milhões em um mercado que acabou de perder seu principal grupo de compradores. O Palmeiras tem caixa, patrimônio esportivo, marca valorizada e diversas fontes de arrecadação para procurar essa resposta. Mas a própria história da era Leila mostra que o clube passou a operar em um patamar financeiro mais alto justamente quando encontrou no mercado das bets uma fonte comercial de grande escala. Agora, a gestão terá de provar que a diversificação construída nos últimos anos é suficientemente forte para absorver a perda de uma das peças mais valiosas desse novo modelo.