Opinião: Como explicar um protesto contra Abel em meio à liderança do Palmeiras
Trocar Abel significaria abandonar uma filosofia que ainda produz resultados, mas manter o treinador também exige recuperar uma confiança que parece desgastada Confesso que, quando vejo a Mancha Verde pedir a saída de Ab...
Confesso que, quando vejo a Mancha Verde pedir a saída de Abel Ferreira justamente agora, minha primeira reação é de estranhamento. Não porque eu ache o português intocável, mas porque existe uma contradição impossível de ignorar: o Palmeiras lidera o Brasileirão com 48 pontos, seis à frente do Flamengo, e continua vivo nas quartas de final da Copa do Brasil, assim como na Copa Libertadores.
Trocar um treinador implica em uma reconstrução, uma guinada que não só anula em parte o trabalho realizado até aqui, mas também expõe uma inevitável aposta, já que o princípio de uma filosofia de jogo expõe a riscos de fracasso. É claro que é razoável parte da torcida pedir mudanças, afinal, liderança se perde, haja vista 2009, quando o Verdão perdeu o Brasileirão após liderar por 17 rodadas, sofrendo um forte colapso de rendimento na reta final sob o comando de Muricy Ramalho, somando apenas seis pontos dos últimos 27 disputados e caindo para a quinta posição, ficando até fora do G-4.
Então, afinal, o que está sendo cobrado? Para mim, a resposta começa quando deixamos de olhar apenas para a tabela. O futebol também é relação, percepção e identificação. E tenho a impressão de que uma parcela da torcida deixou de enxergar em Abel o mesmo treinador que, durante anos, representou competitividade, organização e capacidade de transformar qualquer adversidade em combustível. O problema talvez não esteja mais somente no que o Verdão entrega em campo, mas em como Abel se relaciona com quem está fora dele.
É claro que existe uma discussão tática. O Palestra de hoje não provoca a mesma sensação de domínio em determinados jogos, e algumas escolhas de Abel passaram a ser questionadas com mais intensidade. A própria Mancha já havia criticado anteriormente aspectos como organização, criatividade, posicionamento de jogadores e um futebol considerado previsível. Mas, sinceramente, não consigo explicar um pedido de demissão apenas pelo desempenho de uma equipe que lidera o campeonato.
A relação de Abel com elementos que formam a SEP se deteriorou
É aí que entra, na minha visão, o segundo elemento: o comportamento. Abel construiu uma imagem extremamente forte nas coletivas, muitas vezes respondendo às críticas com firmeza, ironia ou confronto. Isso funcionou enquanto a relação com a torcida estava ancorada nas conquistas. O problema é que a mesma personalidade que antes parecia representar coragem pode, depois de tantos anos, começar a ser interpretada como arrogância ou falta de autocrítica.
E isso não é uma impressão de momento. Em maio, a Mancha já havia chamado Abel de arrogante, desequilibrado e prepotente, além de questionar diretamente o futebol apresentado pela equipe. Ou seja: o protesto atual não parece ser um raio em céu azul. Existe uma deterioração anterior da relação, e ela precisa ser compreendida para que o episódio de hoje faça sentido. Nesta conta, entra quem defende a manutenção do treinador, tanto pela competência já provada, quanto pelo perigo de ver a SEP iniciando um trabalho sem a garantia de que vai trilhar o mesmo caminho do sucesso.
Eu também acho importante separar uma coisa: pedir a saída de Abel não significa necessariamente considerar que ele deixou de ser um grande treinador. Pelo contrário. É justamente porque seu tamanho no Palestra é enorme que o debate se torna tão desconfortável. Abel é o técnico mais vitorioso da história recente do clube. A pergunta, portanto, não deveria ser se ele tem história suficiente para continuar, mas se a relação atual ainda permite que essa história continue sendo construída.
Resultados X Identidade
Na minha leitura, existe ainda um fenômeno muito comum no futebol: a memória das conquistas perde força quando a torcida passa a enxergar os problemas antes de enxergar as soluções. Uma frase atravessada em coletiva, uma substituição contestada ou uma atuação abaixo do esperado ganham um peso diferente quando a confiança já está desgastada. A discussão deixa de ser apenas sobre resultados e passa a ser sobre identidade.
E talvez seja justamente isso que explique o tamanho do paradoxo. Se o Palmeiras estivesse no meio da tabela, eliminado da Copa do Brasil e acumulando derrotas, o protesto seria facilmente compreendido. Mas não é esse o cenário. O time está competitivo, disputa títulos e tem números que, objetivamente, sustentam o trabalho. Por isso, eu não vejo o movimento da Mancha como uma simples avaliação de desempenho. Vejo como o sintoma de uma relação que chegou a um ponto em que resultado já não é suficiente para recompor a confiança.
O bom senso cabe ao Clube
Por fim, eu teria muito cuidado antes de transformar esse protesto em sentença sobre Abel. Uma torcida pode expressar sua insatisfação, mas quem precisa avaliar a continuidade do treinador é o Clube. E, neste momento, minha impressão é que a grande questão não é descobrir se Abel sabe treinar o time — isso ele já provou inúmeras vezes. O verdadeiro desafio é saber se treinador, elenco, direção e arquibancada ainda conseguem caminhar na mesma direção. Porque quando a relação se rompe, até a liderança do campeonato pode parecer pequena.