Opinião: O Palmeiras aprendeu a nascer de novo todas as vezes que a história lhe pediu
Ao longo de 112 anos, o Palmeiras descobriu que sua grandeza também nasceu das crises Minha filha Violeta faz aniversário hoje. E existe uma curiosidade que, confesso, me faz olhar para este 26 de agosto de um jeito aind...
Minha filha Violeta faz aniversário hoje. E existe uma curiosidade que, confesso, me faz olhar para este 26 de agosto de um jeito ainda mais especial: ela estava prevista para nascer no dia 20, mas resolveu esperar. Veio ao mundo de parto natural e, por algum capricho do destino, escolheu dividir sua data com o Palestra. Enquanto ela inicia a própria história, o Palmeiras completa 112 anos carregando uma certeza que só o tempo é capaz de ensinar: viver também é aprender a atravessar mudanças.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido enxergar a história do Palmeiras apenas como uma coleção de títulos. Taças contam muito, mas não contam tudo. Antes de ser uma potência esportiva, o clube precisou sobreviver às próprias transformações. Mudou de nome em um dos momentos mais delicados de sua existência e descobriu, em meio à pressão, que identidade não está apenas nas letras de uma camisa. O Palestra precisou desaparecer para que o Palmeiras pudesse nascer — sem, no entanto, deixar de carregar aquilo que o havia construído.
Depois disso, vieram outras eras, outras reconstruções e outros medos. Houve tempos de abundância e períodos em que a SEP precisou reaprender a vencer. Houve Academias que transformaram futebol em arte, gerações que sustentaram a grandeza e anos em que o peso da própria camisa parecia maior do que a capacidade do time de honrá-la dentro de campo. Mas, de alguma maneira, o clube continuou. Talvez essa seja a sua maior vitória histórica: o Palmeiras nunca foi apenas aquilo que estava vivendo naquele momento.
Hoje, aos 112 anos, o clube vive mais uma de suas grandes eras. Uma era construída sobre estabilidade, investimentos, conquistas e uma estrutura que recolocou o Maior Campeão do Brasil entre os protagonistas permanentes do futebol brasileiro e sul-americano. Seria injusto negar o peso da gestão de Leila Pereira nesse processo, assim como seria simplista imaginar que tudo começou com ela. Grandes instituições são feitas de continuidades, e cada ciclo deixa uma parte do terreno preparado para o próximo.
O desafio para o futuro do Palestra
É justamente por isso que o futuro me provoca. O Verdão terá uma troca de gestão ao fim do atual ciclo, e a pergunta mais importante talvez não seja quem ocupará a cadeira da presidência. A verdadeira questão é outra: o Palmeiras está preparado para que uma era termine sem precisar transformar a sucessão em uma nova reconstrução? Porque clubes realmente grandes não podem depender eternamente de uma pessoa, por mais competente, poderosa ou vitoriosa que ela seja.
O desafio do pós-Leila será preservar o que funciona sem transformar o presente em uma prisão. Manter a estabilidade sem confundi-la com imobilismo. Defender uma estrutura vencedora, mas compreender que toda estrutura precisa ser constantemente renovada. O perigo de uma era muito forte é acreditar que ela encontrou uma fórmula definitiva. E o futebol, assim como a vida, tem o péssimo hábito de punir quem acredita que o futuro pode ser controlado apenas repetindo o passado.
Talvez o maior legado que uma gestão possa deixar não seja um número específico de títulos, mas a capacidade de tornar o clube forte o suficiente para continuar funcionando quando os seus protagonistas saírem de cena. Presidentes passam. Treinadores passam. Jogadores passam. Até as gerações que parecem eternas acabam cedendo espaço para outras. O que não pode passar é a capacidade de uma instituição de saber quem é, para onde vai e quais princípios não podem ser negociados a cada nova troca de comando.
O tempo, o Verdão e a Violeta
E, enquanto penso nisso, volto inevitavelmente para a Violeta. Ela tinha uma data prevista, mas não nasceu quando o calendário dizia que deveria nascer. Esperou o próprio tempo. O Palmeiras também nunca percorreu exatamente o caminho que imaginava. Perdeu um nome, ganhou outro. Viveu glórias, atravessou crises, terminou ciclos e começou novos. Aos 112 anos, talvez sua história seja justamente essa: a de um clube que, mesmo quando precisou mudar, encontrou maneiras de continuar sendo ele mesmo.
Hoje, minha filha completa mais um ano de vida e ‘Società’ celebra mais um capítulo de uma história iniciada em 1914. Não sei o que Violeta encontrará quando crescer e começar a entender por que o pai fala tanto de futebol. Mas espero poder contar a ela que, aos 112 anos, o Palmeiras compreendeu uma das maiores lições de sua própria existência: nenhuma era dura para sempre, e isso não precisa ser uma ameaça. Para quem constrói instituições maiores do que os seus personagens, o fim de uma era nunca é o fim da história. É apenas o momento em que o próximo capítulo começa.