O paradoxo da Data Fifa: desfalques ajudam Abel a mudar o Palmeiras e corrigir comportamento do elenco
Menos desgaste físico e mais repertório: como os treinos na Data Fifa. atacam os dois principais gargalos de rendimento do Verdão O Palmeiras ganhou 11 desfalques na Data Fifa, mas Abel Ferreira ganhou algo que o calendá...
O Palmeiras ganhou 11 desfalques na Data Fifa, mas Abel Ferreira ganhou algo que o calendário quase nunca oferece: tempo. Em meio à pausa, o treinador encontrou uma janela rara para trabalhar mecanismos que dificilmente conseguem ser repetidos quando a temporada aperta. Saída de bola, posse, marcação sob pressão e enfrentamentos apareceram nos treinamentos justamente enquanto boa parte dos titulares estava a serviço de suas seleções. Abel pode estar aproveitando o intervalo para mexer no comportamento coletivo de uma equipe que terá 16 decisões pela frente.
A princípio, parece contraditório chamar de laboratório uma Data Fifa em que o Palestra perdeu 11 jogadores. Afinal, sem Gómez, Giay, Piquerez, Emiliano Martínez, Arias, Sosa, Mauricio e Flaco López, além dos jovens cedidos à Seleção Sub-20, não existe a possibilidade de reproduzir integralmente o time que estará em campo na retomada. Mas talvez justamente por isso a comissão técnica tenha encontrado espaço para trabalhar princípios que precisam funcionar independentemente de quem estiver no gramado.
O detalhe dos treinamentos ganha relevância porque o Verdão não chegou à pausa vivendo apenas um problema de desgaste físico. Depois da Copa, o rendimento no Brasileirão caiu de maneira perceptível, com apenas quatro vitórias em dez partidas. O cenário indica que o time precisou encontrar respostas diferentes em uma sequência na qual o calendário reduziu o espaço para treinamento. A Data Fifa, portanto, aparece como uma espécie de intervalo de manutenção e, ao mesmo tempo, de reprogramação.
Nesse ponto, saída de bola e marcação sob pressão deixam de ser apenas exercícios de treino. Os dois fundamentos atacam momentos complementares do jogo: como o Palmeiras começa a construir e como tenta recuperar a bola quando deixa de tê-la. Entre uma coisa e outra está boa parte da identidade de uma equipe. Se a primeira construção não encontra soluções, o time pode se tornar previsível, bem como, se a pressão não funciona, o adversário ganha campo.
Mais do aprimorar a tática, Abel mira o comportamento
Entretanto, com um elenco incompleto, o ponto focal das ações de Abel na Academia é o comportamento do time. Antes, o calendário obrigava o treinador a escolher entre competir, recuperar jogadores e preservar o elenco. Agora, ainda que por poucos dias, existe a possibilidade de repetir movimentos, corrigir posicionamentos e experimentar soluções que depois poderão ser transportadas para os jogos oficiais.
Isso também explica por que os jogadores da base, mesmo sem perspectiva imediata de titularidade, podem ter utilidade nesse processo. Eles ajudam a completar os exercícios, mas também obrigam a comissão a trabalhar conceitos que não dependem exclusivamente das características de uma formação considerada ideal. Em um laboratório, a questão principal não é reproduzir exatamente o cenário final, mas testar aquilo que precisa continuar funcionando quando as condições mudarem.
E as condições vão mudar rapidamente. Quando o Palestra voltar a jogar, terá Bahia, Corinthians e Fluminense em uma sequência que recoloca imediatamente o time no ambiente de pressão competitiva. Depois, haverá a continuidade das disputas pelo Brasileirão, pela Libertadores e pela Copa do Brasil. É por isso que as 16 decisões restantes exigirão do Palmeiras capacidade de alternar contextos, administrar diferentes adversários e encontrar soluções sem depender sempre da mesma partida.

Nesse cenário, o retorno gradual de Paulinho acrescenta uma variável particularmente promissora. O atacante voltou a realizar atividades no gramado durante a Data Fifa, ainda dentro do processo de recuperação, e sua evolução não significa que estará automaticamente à disposição para a retomada. Mas sua possível volta amplia o repertório ofensivo de Abel justamente no momento em que o treinador trabalha mecanismos coletivos. A questão é entender como uma nova característica pode se encaixar em um Verdão que busca mais alternativas.
A missão do laboratório de Abel
Talvez seja essa a grande utilidade da pausa: Abel não precisa sair dela com um Palmeiras completamente diferente. Precisa sair com sua ‘equipa’ capaz de executar melhor aquilo que já pretende fazer e, quando necessário, encontrar uma segunda resposta. O laboratório pode produzir algo menos visível, mas decisivo, provendo um time que saiba sair de uma pressão de maneira diferente, pressionar melhor depois da perda e construir ataques com mais de uma possibilidade.
Porque a Data Fifa chegou em um momento em que o time Alviverde não precisava apenas descansar. Precisava recuperar rendimento. Abel recebeu uma oportunidade rara para fazer isso longe do barulho dos jogos, ainda que com 11 ausências importantes. A pausa pode não mudar os nomes que estarão em campo, mas pode mudar o que esses jogadores farão quando estiverem nele. Para uma equipe que terá 16 decisões pela frente, a experiência que mais importa é preparar mecanismos para que o Palestra tenha mais respostas quando já não houver tempo para experimentar.