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Opinião: O desafio do Brasil não é jogar sem Neymar. É jogar com ele

Opinião: O desafio do Brasil não é jogar sem Neymar. É jogar com ele

25/06/2026 19:57

O retorno do camisa 10 foi emocionante, mas a reta final contra a Escócia levantou uma questão que já acompanhou outras seleções: até que ponto um ídolo pode mudar a forma como seus companheiros jogam? Existe uma cena qu...

O retorno do camisa 10 foi emocionante, mas a reta final contra a Escócia levantou uma questão que já acompanhou outras seleções: até que ponto um ídolo pode mudar a forma como seus companheiros jogam?

Existe uma cena que parecia improvável até pouco tempo atrás: Neymar retorna à Seleção Brasileira depois de um longo período afastado, entra em campo sob aplausos, emociona torcedores e companheiros, mas deixa uma sensação curiosa para quem assistia ao jogo.

O Brasil parecia jogar de um jeito antes dele entrar e de outro depois. Não porque Neymar tenha jogado mal ou porque tenha errado lances decisivos. Mas porque, em vários momentos, a impressão era de que os companheiros passaram a procurá-lo mais do que procuravam a melhor jogada.

É uma observação delicada. Afinal, estamos falando do maior jogador brasileiro de sua geração, um atleta que durante mais de uma década, carregou o peso de ser o rosto da Seleção. Mas talvez a questão mais interessante não seja sobre Neymar, e sim, sobre o que acontece com um time quando um ídolo retorna.

Quando o craque vira solução automática

Durante anos, a Seleção Brasileira viveu uma relação de dependência com Neymar. Em muitos jogos, o plano parecia simples: entregar a bola ao camisa 10 e esperar que algo acontecesse. Não era uma escolha irracional, afinal, poucos jogadores no mundo eram tão capazes de decidir partidas sozinhos.

O problema é que dependência e confiança são coisas diferentes. A confiança fortalece um time. A dependência muitas vezes limita. Nos últimos meses, o Brasil parecia caminhar em outra direção, com Vinicius Júnior assumindo protagonismo, outros jogadores passando a participar mais da construção ofensiva e a equipe apresentando diferentes caminhos para criar jogadas.

Contra a Escócia, antes da entrada de Neymar, a sensação era justamente essa: uma equipe distribuindo responsabilidades. Depois, por alguns minutos, pareceu surgir uma tentação antiga. A tentação de fazer o jogo passar novamente pelo camisa 10.

Portugal já viveu essa história

O melhor paralelo que consigo pensar não está no passado da Seleção Brasileira e sim, em Portugal. Durante anos, Cristiano Ronaldo foi o centro de tudo, o maior jogador da história do país, o capitão, a principal referência técnica e emocional. Naturalmente, seus companheiros o procuravam o tempo inteiro. Isso teve seu preço.

O resultado nem sempre era positivo, pois Portugal parecia menos preocupado em encontrar a melhor solução e mais preocupado em encontrar Cristiano. O jogo ficava previsível e as alternativas diminuíam.

Com o passar do tempo, a seleção portuguesa encontrou um equilíbrio mais saudável, com Cristiano deixando de ser a única resposta e Portugal funcionando melhor como equipe.

O desafio de Ancelotti

A grande notícia da Copa não é apenas que Neymar voltou. É que o Brasil chegou até aqui mostrando sinais de que pode existir sem ele. Isso não diminui sua importância, pelo contrário: ter Neymar disponível amplia as possibilidades da Seleção, mas apenas se sua presença acrescentar novas soluções em vez de substituir as que já existiam.

Por isso, o verdadeiro desafio de Carlo Ancelotti talvez não seja decidir quando Neymar joga, mas garantir que o Brasil continue sendo o mesmo Brasil quando ele estiver em campo. Uma equipe capaz de encontrar Vinicius, Rayan, Bruno Guimarães ou qualquer outro jogador que esteja na melhor posição. Uma equipe que não se sinta obrigada a passar por um único nome.

Porque a pior coisa que poderia acontecer à Seleção não seria depender de um Neymar sem ritmo ou distante de sua melhor forma. Seria voltar a acreditar que depende dele para existir. Neymar continua sendo um dos maiores talentos que o futebol brasileiro produziu.

Mas a melhor notícia para o Brasil em 2026 talvez seja justamente outra. A descoberta de que o protagonista da Seleção já não precisa ser apenas um.