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Palmeiras ganha novo trunfo com Fair Play e vê Flamengo diante de outro desafio

Palmeiras ganha novo trunfo com Fair Play e vê Flamengo diante de outro desafio

08/10/2026 00:37

O Fair Play Financeiro começa a mudar a lógica do futebol brasileiro, colocando a sustentabilidade no centro da disputa. Palmeiras e Flamengo entram nesse novo ciclo com estruturas diferentes e desafios que vão além do c...

O Fair Play Financeiro começa a mudar a lógica do futebol brasileiro, colocando a sustentabilidade no centro da disputa. Palmeiras e Flamengo entram nesse novo ciclo com estruturas diferentes e desafios que vão além do campo

O futebol brasileiro está entrando numa fase em que dinheiro não será apenas combustível para contratar jogador. A capacidade de administrar receita, dívida e orçamento poderá se transformar em vantagem competitiva. É justamente aí que o Palmeiras passa a olhar com atenção para o movimento do Flamengo e para as novas regras do Fair Play Financeiro.

O assunto deixou de ser uma discussão abstrata. Clubes das Séries A e B já articulam a flexibilização de punições relacionadas a dívidas anteriores a 2026. Pelo regulamento atual, a partir do fim de novembro entram em cena sanções que podem chegar a multa, retenção de receitas, restrição para registrar atletas, perda de pontos e até consequências mais graves. A discussão ganhou força justamente quando os clubes se preocupam por seus patrocínios e a questão envolvendo a medida provisória das bets.

Nesse ponto, a SEP pode encontrar uma vantagem que não aparece necessariamente no tamanho da receita. O clube acumulou déficit de R$ 196 milhões até agosto de 2026, mas esse número ainda não incorporava a venda de Allan ao Manchester City, negociada por mais de R$ 220 milhões fixos. Ou seja: o resultado contábil do ano pode mudar radicalmente com a entrada de receitas extraordinárias, mas o debate importante é outro. Até onde o modelo palmeirense consegue absorver oscilações sem abandonar o planejamento esportivo?

O próprio balanço de 2025 ajuda a entender a complexidade. O Verdão terminou aquele exercício com R$ 1,628 bilhão de receita operacional líquida e R$ 292,4 milhões de superávit. Ao mesmo tempo, sua dívida operacional chegou a R$ 986 milhões, aumento explicado principalmente pelas aquisições de atletas. O número, portanto, não pode ser lido isoladamente como uma dívida convencional: parte relevante está relacionada à própria estratégia de montagem do elenco.

O cenário financeiro de Gávea

Desta forma, o Flamengo aparece como contraponto perfeito para a análise. Não porque o clube carioca esteja em situação financeira descontrolada, os números não permitem essa afirmação, mas porque o tamanho de sua operação torna qualquer mudança de receita especialmente relevante. BAP chegou a estimar em R$ 400 milhões anuais o impacto potencial da MP das bets sobre o orçamento rubro-negro e questionou publicamente como compromissos importantes, como o pagamento de Paquetá, seriam equacionados nesse novo cenário.

O Flamengo, aliás, decidiu levar a discussão também para o campo institucional. O clube pediu ao Supremo Tribunal Federal para participar como amicus curiae na ação que discute a constitucionalidade da medida provisória sobre as bets. Na manifestação, o Rubro-Negro argumentou que a mudança afeta contratos de patrocínio, financiamento do esporte e segurança jurídica. Não é apenas uma briga por dinheiro de camisa: é uma disputa sobre as condições econômicas nas quais os grandes clubes brasileiros vão operar daqui para frente.

Há um desafio interessante nessa comparação. O Flamengo tem uma capacidade de geração de receita gigantesca, enquanto o Palmeiras construiu nos últimos anos uma estrutura igualmente ambiciosa, mas com características próprias. Quando uma fonte extraordinária desaparece, porém, não basta saber quem arrecada mais. A pergunta passa a ser quem consegue substituir aquela receita, manter o investimento no futebol e, ao mesmo tempo, respeitar os limites impostos pelo novo ambiente regulatório.

O caso das bets deixa isso evidente. Segundo levantamento publicado pelo UOL, o patrocínio da Betano representava cerca de R$ 270 milhões para o Flamengo, enquanto o Palmeiras recebia aproximadamente R$ 100 milhões da Sportingbet. A diferença mostra que o impacto absoluto sobre o Flamengo é maior, mas também revela outra coisa: os dois clubes precisarão encontrar novas fontes de receita justamente quando o mercado ficou mais restritivo e os patrocinadores ganharam poder de negociação.

Mudança na hierarquia dos clubes e uma vantagem palestrina

Por isso, o Fair Play Financeiro pode produzir uma mudança silenciosa na hierarquia do futebol brasileiro. Durante anos, a discussão foi sobre quem conseguia colocar mais dinheiro no elenco. A próxima etapa pode ser sobre quem consegue fazer isso sem comprometer o futuro. O regulamento estabelece, entre outros critérios, que clubes da Série A terão de respeitar limites para déficits acumulados e para a dívida líquida de curto prazo, com implantação gradual das exigências até 2030.

O Alviverde tem uma característica que merece atenção nesse cenário: sua capacidade de transformar futebol em receita. Premiações, venda de jogadores, bilheteria, patrocínios e valorização de atletas formam uma combinação que pode funcionar como amortecedor. A questão é saber se esse mecanismo continuará funcionando quando o clube precisar competir simultaneamente por títulos e por equilíbrio financeiro.

O Rubro-Negro enfrenta o desafio de transformar sua enorme capacidade de arrecadação em previsibilidade. Algo que também paira e urge no Palestra. O Fair Play não promete transformar o clube mais rico em clube mais competitivo automaticamente. Tampouco elimina as diferenças entre Flamengo, Palmeiras e os demais.

O desafio aos gigantes está posto

Mas pode premiar uma característica que durante muito tempo pareceu menos importante do que o poder de investimento: a já apontada previsibilidade. Se o futebol brasileiro realmente caminhar para um ambiente em que déficit, dívida e custo do elenco tenham consequências esportivas, administrar bem deixará de ser apenas uma questão contábil. Poderá ser uma arma dentro de campo.

É por isso que a discussão sobre Palmeiras e Flamengo não deveria terminar na pergunta sobre quem tem mais dinheiro. A questão que começa a valer é outra: quem estará melhor preparado quando gastar muito deixar de ser suficiente? O Flamengo tem escala para reagir. O Palmeiras tem um modelo que já passou por diferentes ciclos de receita e investimento. O Fair Play Financeiro pode colocar essas duas estruturas diante de um teste novo e, desta vez, a vantagem pode pertencer menos a quem tem a maior receita e mais a quem conseguir transformar dinheiro em sustentabilidade.