Marlon Freitas assume função híbrida e coloca uma questão no Palmeiras de Abel
Os 4.673 minutos ajudam a explicar a confiança de Abel Ferreira. Mas a presença constante do volante também expõe uma dependência Marlon Freitas se tornou uma espécie de tradutor do Palmeiras de Abel Ferreira. Isso porqu...
Marlon Freitas se tornou uma espécie de tradutor do Palmeiras de Abel Ferreira. Isso porque consegue interpretar diferentes necessidades do mesmo time. Aos 31 anos, o volante assumiu uma função que vai muito além da proteção à defesa: participa da saída, oferece equilíbrio, cobre os avanços dos companheiros e também aparece em zonas de finalização. O número de minutos ajuda a dimensionar a confiança que ele construiu, pois são 4.673 em 52 dos 56 jogos em 2026, com 49 titularidades. Entre jogadores de linha no futebol brasileiro, ninguém esteve mais em campo.
Ele atua muito porque se transformou em uma peça capaz de resolver problemas diferentes dentro da estrutura de Abel. Quando o Verdão precisa iniciar a construção com segurança, ele aparece. Quando precisa proteger os zagueiros, está lá. Quando um lateral ou ala ganha liberdade para atacar, existe a possibilidade de Marlon compensar o espaço. É uma característica que ajuda a explicar por que um jogador que chegou inicialmente com a imagem de segundo volante terminou consolidado como primeiro meio-campista. O próprio jogador já havia dito, no início do ano, que não via problema em atuar como 5 ou 8.
Isso muda até a maneira de enxergar a saída de bola Alviverde. O camisa 17 não precisa ser o homem responsável por criar a última assistência para participar diretamente da construção. Sua importância começa alguns metros antes. Ao baixar para receber dos zagueiros, oferecer linha de passe e acelerar a circulação, ele ajuda a equipe a sair da primeira pressão. Quando recebe liberdade para avançar, o movimento de outro jogador precisa compensar sua posição. É justamente essa relação que torna sua função híbrida interessante: Marlon ajuda a reorganizar os espaços dos demais.
Ser híbrido, no caso de Marlon, significa saber quando mudar de comportamento. Em determinados momentos, ele pode funcionar praticamente como o quinto jogador da primeira linha de construção, em outros, permanece à frente dos zagueiros para controlar a transição defensiva. Quando o Palmeiras sobe seus laterais ou alas, sua leitura passa a ser ainda mais importante. A função dele está na fotografia daquilo que acontece imediatamente antes da conclusão decisiva para que o time tenha liberdade de atacar sem se desmontar.
Entendendo a função híbrida do camisa 17…
Foi assim que o volante também passou a aparecer mais perto da área. O gol marcado contra a LDU, no jogo de volta das quartas de final da Libertadores, serve como evidência de que sua participação ofensiva ganhou novas camadas. Desta forma, o Maior Campeão do Brasil encontrou maneiras de fazê-lo chegar, enquanto preserva sua capacidade de sustentar o time.
Isso também ajuda a entender a parceria com Andreas Pereira. Quando Marlon assume a base da jogada, Andreas pode receber mais liberdade para avançar. Quando outros jogadores ocupam posições ofensivas, Marlon oferece a cobertura necessária. Não por acaso, a análise do início da temporada já apontava que a dupla havia ajudado o Verdão a ter mais posse e construção, enquanto Marlon se consolidava como o primeiro volante. É uma engrenagem menos chamativa do que um gol ou uma assistência, mas decisiva para entender por que o meio-campo consegue alternar controle e agressividade.
‘Marlondependência’ é a preocupação. Será que dá conta?
Só que existe um outro lado nessa história. Os 4.673 minutos também expõem o tamanho da dependência construída ao longo da temporada. Marlon ficou fora de apenas quatro partidas e está muito à frente dos demais jogadores de linha em tempo de jogo. Murilo, segundo no elenco nesse ranking, aparece com 4.357 minutos. Em um calendário que ainda exige o time em diferentes competições, a pergunta deixa de ser apenas por que Abel confia tanto nele. Passa a ser: até onde o Palmeiras consegue funcionar sem ele?

Essa é uma diferença importante. Ter um jogador capaz de executar várias funções é uma virtude de elenco. Precisar dele praticamente o tempo inteiro pode se transformar em uma questão estrutural. A SEP tem outros meio-campistas, mas nenhum necessariamente reproduz a combinação de leitura, experiência, capacidade de construção e disponibilidade que Marlon entregou durante o ano. O próprio clube o colocou como um dos pilares do time desde o primeiro semestre, destacando sua importância tanto na transição entre defesa e ataque quanto no ambiente do elenco.
A síntese do palestra ‘abelista’?
Por isso, talvez Marlon seja um dos jogadores que melhor explicam o Palmeiras de Abel em 2026. Sua presença permite que outras peças sejam mais agressivas, que os laterais avancem, que Andreas jogue mais à frente e que a equipe alterne desenhos sem necessariamente perder sua referência de equilíbrio. É o tipo de jogador que pode passar despercebido quando o sistema funciona perfeitamente justamente porque boa parte do seu trabalho consiste em fazer com que os outros possam aparecer.
E aqui está a grande questão que fica para o Palmeiras: Marlon Freitas virou indispensável porque é versátil ou ficou versátil porque o time passou a depender dele? A resposta provavelmente está no meio do caminho. O volante se adaptou ao projeto de Abel, mas o projeto também encontrou nele uma solução para diferentes problemas. O desafio agora é evitar que ela se transforme em dependência. Porque um Palestra realmente completo não pode ter apenas uma peça capaz de sustentar tantos desenhos, precisa ter mecanismos para continuar funcionando quando essa peça, inevitavelmente, precisar sair.