O Grêmio que David Coimbra entenderia
Crônica em homenagem a David Coimbra analisa o momento do Grêmio, que busca vitórias e tranquilidade antes da parada para a Copa do Mundo. Entre vitórias sem brilho e a urgência da paz antes da parada Há vitórias que não...
Entre vitórias sem brilho e a urgência da paz antes da parada
Há vitórias que não encantam. Há vitórias que apenas aliviam. E talvez o momento do Grêmio seja exatamente esse: menos poesia e mais sobrevivência. David Coimbra compreenderia isso imediatamente. Porque David entendia que o futebol não vive apenas de espetáculo. O futebol também vive de trincheira, de resistência emocional, de atravessar o temporal sem afundar.
O Grêmio de hoje não é um time pronto. Não é um time confiável. Não é um time que o torcedor assiste com serenidade. Mas é um time que começa, aos poucos, a reencontrar uma virtude antiga do futebol gaúcho: vencer mesmo quando a bola não sorri.
David gostava das nuances do futebol. Gostava do detalhe humano escondido dentro do jogo. E talvez escrevesse que existe certa dignidade em um time cansado que continua vencendo. Porque o Grêmio atual parece um homem atravessando a chuva sem guarda-chuva: não há elegância, não há conforto, apenas a necessidade de seguir caminhando.
O mais importante, neste instante, não é convencer. É chegar vivo à parada para a Copa do Mundo. Vivo emocionalmente. Vivo na tabela. Vivo dentro das competições. Luís Castro deixa isso escapar em cada entrevista. O técnico fala como alguém que conta os dias para finalmente respirar, treinar, corrigir distâncias, organizar movimentos e devolver identidade a um time que ainda parece improvisado em muitos momentos.
O futebol também é sobrevivência
David Coimbra dizia, muitas vezes sem dizer exatamente assim, que o futebol tem alma. E a alma do Grêmio sempre esteve ligada à capacidade de suportar pressão. Não necessariamente jogar bonito. Mas competir. Resistir. Permanecer de pé.
É por isso que as vitórias recentes têm valor. Mesmo sem brilho. Mesmo sem convencer. Porque havia um tempo, poucas semanas atrás, em que o Grêmio parecia incapaz até disso. Hoje, ao menos, vence. E no futebol brasileiro, especialmente antes de uma parada longa, vencer vale mais do que qualquer debate estético.
Braithwaite voltar a fazer gols importa muito. Não apenas pelos números. Centroavante vive de algo invisível: confiança. E confiança muda campeonato. Cristian Pavón, tão criticado durante parte da temporada, também reaparece como peça útil num momento em que o Grêmio precisa desesperadamente de jogadores que sustentem minimamente o sistema ofensivo.
Mas talvez o símbolo mais interessante desse momento tenha sido Amuzu. Não apenas pela atuação. Mas pela entrevista. Pela serenidade. Pela forma como falou de Porto Alegre, do desejo de permanecer e também da ansiedade pela possibilidade de defender Gana. Havia sinceridade ali. E David Coimbra gostava disso: jogadores que falassem como seres humanos, não como respostas automáticas de assessoria.
Chegar inteiro vale mais do que encantar
Existe uma obsessão moderna por desempenho. Como se todo time precisasse jogar como campeão europeu o tempo inteiro. David provavelmente riria disso. Futebol brasileiro é caos. É calendário absurdo. É pressão diária. Às vezes, a missão não é encantar. É sobreviver até que exista tempo para reconstruir.

O Grêmio precisa entender exatamente isso.
Chegar à pausa da Copa sem sustos talvez seja mais importante do que qualquer atuação exuberante. Porque a parada permitirá algo raro no futebol brasileiro: tempo. Tempo para treinar. Tempo para recuperar jogadores. Tempo para reorganizar ideias. Tempo para que Luís Castro finalmente coloque sua assinatura no time.
Até lá, talvez o torcedor precise aprender uma virtude difícil: paciência.
Porque existem temporadas em que o espetáculo vem primeiro. E existem temporadas em que o resultado precisa vir antes de tudo.
David Coimbra entenderia perfeitamente essa diferença!