Opinão: Surto cognitivo coletivo sobre Neymar expõe nossa incapacidade de encarar o real
Da esperança cega ao incômodo estampado no banco: como o delírio sobre o camisa 10 nos impediu de ver o óbvio Após cerca de um mês da eliminação da Seleção Brasileira da Copa de 2026, em um verdadeiro roteiro de erros e ...
Após cerca de um mês da eliminação da Seleção Brasileira da Copa de 2026, em um verdadeiro roteiro de erros e flagras deprimentes sobre a postura da equipe de Carlo Ancelotti, a convocação de Neymar para a empreitada do Hexacampeonato, me provoca reflexões sobre os motivos e os propósitos que fizeram o camisa 10 do Santos integrar os 26 escolhidos pelo técnico italiano.
O meu olhar primordial sobre a tão polêmica convocação aponta para um não entendimento geral sobre o que de fato poderia se extrair da presença de um jogador que teve presença garantida por seu histórico e não por seu momento. Até aí, nada de novo sob o sol, pois convocação de medalhões que ficaram no banco sempre ocorreram, como é o caso de Zico, em 1978, Alessandro Del Piero, que ficou boa parte na reserva da Itália, em 2006, ou até mesmo o mitológico Cristiano Ronaldo, que amargou banco no Catar, em 2022.
No caso de Neymar, era fundamental a compreensão de que, a priori, Ancelotti fez uma aposta na recuperação do jogador, o que logo de cara, tirava o carimbo de protagonista que o craque sempre teve com a camisa da Seleção. Acredito que isso causou estranheza e confusão entre os que depositavam no jogador a esperança de ser um trunfo inconteste.
O não entendimento do propósito de Ancelotti fez com que, mesmo sem condições de ser o líder em campo, o foco midiático sobre os passos de Neymar tomassem proporções insuportáveis, esticando uma polêmica vazia, afinal, todos sabiam o cenário exposto. Com a não compreensão sobre o papel de coadjuvante do camisa 10, creio que se perdeu a oportunidade de que, em silêncio, Neymar poderia exercer o trunfo de sua experiência como uma referência ao elenco fora de campo.
Quando estivesse pronto, sua entrada seria natural, orgânica, sem os ruídos de cobrança ou pressão que distorceram o que de bom poderia ser extraído da convocação que gerou debates. A tal influência assertiva ao elenco não aconteceu, algo surpreendente, já que muitos do grupo pediram e comemoraram a convocação. A pergunta que me pega é: O que esperavam então? Que o astro fosse o salvador de um desconexo time, mesmo lesionado?
Até Neymar não entendeu
O próprio Neymar também integra o surto cognitivo que tomou o país a respeito de sua participação na Copa do Mundo. Em mais de uma oportunidade, na minha visão, foi flagrado visivelmente desconfortável no banco de reserva. Mais do que ninguém, ele sabia de suas reais condições físicas e técnicas para suportar o ritmo de uma competição desse nível. A postura em campo e no banco não era mera desilusão; era o peso da lucidez de quem reconhecia a abissal distância entre o mito criado pela expectativa pública e a realidade imposta pelo próprio corpo.
No fim das contas, a insistência em transformá-lo no salvador da pátria acabou expondo não apenas as limitações do atleta, mas a nossa própria incapacidade de encarar os fatos sem os filtros do ufanismo. Aí é possível colocar nessa conta tanto a gritaria dos fãs do jogador, como também os ataques dos detratores.
Carletto tragado pela gritaria?
Por fim, avalio que Ancelotti também errou na condução de Neymar na Copa, pois, o treinador confessou o erro tático em lançar o atleta contra a Noruega, o que me leva a crer, té mesmo quem tinha um plano, acabou tragado pelo mar de ansiedade, análises equivocadas que formaram o tal surto cognitivo que marcou a despedida das Copas do maior goleador da Seleção Brasileira.