Palmeiras goleia o Corinthians e usa Memphis Depay como trilha sonora do deboche
A rivalidade transforma gestos, refrões e comemorações em lembranças que sobrevivem ao apito final. Dessa vez, o Verdão aproveitou um símbolo rival para prolongar a festa com humor mordaz Há vitórias que terminam no apit...
Há vitórias que terminam no apito final. Outras pedem bis, repeteco e, se possível, um bom sistema de som. No domingo (11), o Palmeiras fez 4 a 1 no Corinthians e resolveu esticar a festa no vestiário com uma escolha musical que dispensava explicações: “Deixa o Chefe Balançar”, canção associada a Memphis Depay, nas celebrações corintianas pelo título da Copa do Brasil. O placar já dizia bastante. A playlist resolveu acrescentar o barulho.
No futebol, a fronteira entre comemoração e provocação é tão estreita quanto a paciência do torcedor depois de uma derrota para o maior rival. Os jogadores do Palestra, aparentemente, não estavam interessados em estudar essa delicada questão diplomática. Escolheram a música, aumentaram o volume e fizeram do vestiário uma extensão da arquibancada. Quatro gols não pareciam suficientes para encerrar o expediente.
O placar funciona como argumento, credencial e, em certas vezes, autorização para o deboche. A SEP não precisava inventar uma narrativa para se colocar acima do rival: os quatro gols já haviam produzido a manchete. A música foi o comentário espirituoso depois do ponto final, aquele parágrafo que não altera a conclusão, mas deixa o leitor com um sorriso, ou com vontade de contestar o autor.
A ironia está no destino de um símbolo. Uma música que ajudou a embalar a festa corintiana passou a servir de trilha para a comemoração palmeirense. É quase uma pequena aula sobre a propriedade intelectual no futebol: o adversário investe na construção de um ritual, dá a ele nome, rosto e refrão, mas não consegue impedir que o rival encontre outra utilidade para o produto. No mercado da corneta, os direitos autorais costumam ser bastante flexíveis.
O troco palestrino escolheu seu alvo maior
Memphis, nesse roteiro, virou personagem de uma festa da qual não participava. Não é necessário imaginar um capítulo secreto de bastidores no silêncio alvinegro. O simbolismo já funciona por conta própria. Quando uma figura se associa a uma música, a uma comemoração e a um momento importante do rival, oferece involuntariamente matéria-prima para a próxima provocação. O futebol tem dessas delicadezas: às vezes, a homenagem sobrevive, mas muda de endereço.
Há também uma diferença fundamental entre a provocação que nasce de uma vitória e aquela que tenta compensar uma derrota. O Palmeiras não precisou fabricar um acontecimento para fazer barulho. Venceu por 4 a 1, diante de sua torcida, e encontrou na própria história recente do adversário o ingrediente adicional para a celebração. A música não fez os gols, evidentemente. Mas ajudou a transformar o resultado em narrativa, e narrativas, no futebol, costumam durar mais do que os noventa minutos.

O Derby, afinal, nunca foi uma reunião de condomínio em que os vizinhos discutem a cor da parede e terminam dividindo o elevador com sorrisos protocolares. Desde as provocações do século passado até as provocações que atravessam as redes sociais, a rivalidade paulista vive de gestos que ganham proporções históricas. Um drible, uma frase, uma música ou uma comemoração podem virar patrimônio afetivo de uma torcida e material de expediente para a outra. O clássico é também uma disputa pela memória.
Uma velha história de provocação no Derby
O Palmeiras conhece bem essa mecânica. A história do porco, por exemplo, ensina que nem sempre o autor de uma provocação consegue controlar o significado que ela terá no futuro. Aquilo que nasceu como ofensa pode acabar incorporado à identidade de quem deveria se sentir atingido. No caso de Memphis, o movimento é diferente: não se trata de transformar um insulto em símbolo próprio, mas de aproveitar um símbolo alheio para temperar uma vitória. A rivalidade é uma espécie de reciclagem permanente, com o detalhe de que ninguém se preocupa muito com a sustentabilidade emocional do adversário.
Naturalmente, a cena também diz algo sobre o futebol brasileiro de hoje. O espetáculo não termina quando a bola para de rolar. Há o vídeo, o recorte, o meme, a postagem e a disputa pela última palavra. O vestiário virou mais um palco, e a comemoração passou a ser produzida também para quem assistirá depois, pelo celular. A música escolhida pela SEP tinha um destinatário evidente, mas uma plateia muito maior. O Derby acabou no gramado, na internet, ganhou prorrogação.
O mais interessante é que a goleada dispensou o exagero. Não era necessário declarar superioridade histórica, decretar o fim de uma era ou transformar um domingo em sentença definitiva sobre o arquirrival. Bastava lembrar o resultado e apertar o play. O 4 a 1 já continha a mensagem, a música apenas escolheu a embalagem. Como acontece nas melhores provocações, o destinatário conhecia perfeitamente o motivo da brincadeira, enquanto o remetente podia alegar, com a inocência teatral de quem acaba de esconder o controle remoto, que estava apenas comemorando.
Sem crise, é apenas futebol
Há uma certa sabedoria na escolha de não inventar uma piada inteiramente nova. O Palestra encontrou uma referência que o torcedor reconhece, que o corintiano identifica e que dispensa longas legendas. Em tempos nos quais qualquer provocação corre o risco de virar um tratado de marketing, a simplicidade tem seu charme. No fim das contas, o Verdaço fez o que se espera de um rival quando a oportunidade aparece: ganhou em campo e prolongou a festa fora dele.
Não há necessidade de transformar a cena em uma crise diplomática, muito menos de procurar nela uma tese definitiva sobre o caráter de Memphis ou dos jogadores envolvidos. Foi futebol, foi provocação e foi humor de vestiário. O tipo de episódio que alimenta a rivalidade justamente porque não exige solenidade. Até o Corinthians conseguir descontar em uma revanche, a música da zoeira ganhou uma nova lembrança, o placar seguirá disponível para consulta e os palestrinos terão mais um motivo para sorrir quando o refrão tocar. Desta vez, o Maior Campeão do Brasil nem precisou compor a canção. Bastou escolher a trilha certa para uma goleada que já tinha ritmo próprio.